Paralisação de 112 dias em federais leva Andifes a
propor mecanismo para reduzir prejuízo dos alunos
LUCIANA
CONSTANTINO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Após enfrentar a greve mais longa das universidades federais
ocupando a sede da Andifes (associação de reitores dessas instituições), o
presidente da entidade, Oswaldo Baptista Duarte Filho, 55, defende a criação
deummecanismo de negociação que evite paralisações do sistema por longos
períodos e, ao mesmo tempo, não permita que o governo fique sem conceder
reajuste de umano para outro.
No ano passado, foram 112 dias sem aulas na graduação.
Duarte Filho, porém, diz que os professoresmantiveram a pesquisa e a extensão, o
que na sua visão justificariaofatodenãoter
sidodescontadoosaláriodosgrevistas.
Em reunião com reitores, realizada no dia 17 de janeiro no
Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT) fez uma
cobrança, lembrando que, quando era metalúrgico e líder sindical, sua categoria
tinha ponto cortado nasgreves.
Em entrevista à Folha, Duarte Filho reconhecequeoalunoacaba
sendo “um instrumento de pressão”, mas diz haver preocupação
emrecomporosemestre.
Para ele, a expansão do número de universidades federais
programada pelo governo irá ajudar a democratizar o acesso à rede pública. Diz,
no entanto, estar preocupado com a garantia no futuro de recursos e contratação
de pessoal. Serão dez novas universidades e42extensõesde campi.
Reitor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos),
Duarte Filho afirma ter havido nos últimos anos uma “campanha sistemática” para
desmoralizar o sistema público e teme que, com as eleições deste ano, o próximo
governo deixe de investir nas federais. ★
Folha - Em 2005, as federais enfrentaram a greve mais longa
de sua história. A regulamentação de greve no setor público ajudaria a
universidade?
Oswaldo Baptista Duarte Filho Minha opinião pessoal é que
precisamos demecanismos eficientes de negociação. Não podemos ter um sistema que
fica parado cem dias como também não podemos ter um governo que fica dez anos
sem dar reajuste para seu funcionário. Temos que criar um mecanismo em que as
partes tenham de sentar e negociar em umprazo relativamente curto.
Folha - Como foi a posição da Andifes na última
greve?
Duarte Filho - Aentidade se colocou como mediadora, criando
condição para que as partes negociassem. Quando sentimos que o processo de
negociação havia esgotado, tiramos, pela primeira vez, um documento emque
colocamos a importância do retorno àsatividades.
Folha - Por que não cortar o ponto dos
grevistas?
Duarte Filho - Porque é extremamente difícil trabalhar
nisso. A greve atinge de forma parcial as funções dosdocentes. Elesnãopararam de
fazer suas atividades de pesquisa e extensão, mas sim a graduação. Como você vai
cortar o ponto? Outra coisa é que nas universidades não há umcontrole de ponto
como existe numa empresa. Até porque o docente desenvolve suas atividadesnãosóno
períodode oitohoras, mas ele leva coisa para casa. Émuito difícil ter esse tipo
de controle. Acredito mais num processo eficiente de negociação. Ninguém faz
greve porquequer.
Folha - Não é injusto para o aluno, que sofre com as
greves?
Duarte Filho
- Com certeza ele temumpeso. Por isso existe todo um
compromisso dos setores de recompor o semestre para que o estudante não seja
prejudicado. Na realidade ele acaba sendo um instrumento de pressão. A gente
sente isso, mas procura minimizar esseimpacto.
Folha - A greve ocorreu num período em que o Brasil já vivia
a crise política, e a academia foi acusada de ter ficado calada. Não passa para
a sociedade a sensação de que a universidade está mais preocupada com o próprio
umbigo do que em discutir temas atuais?
Duarte Filho
- Não acredito. Até porque, se fizermos um histórico da
situação das universidades, vamos perceberque é quaseummovimento cíclico de
tentativa de recomposição salarial. Não acho que tenhaligação.
Folha - O sr. acha que a academia, especialmente as
federais, foi omissa ao não discutir mais este momento político?
Duarte Filho - Não acho. As pessoas foram surpreendidas por
todo esse quadro. Não foi só a academia. Sinto que as pessoas estão um pouco
distantes, esperando um quadro concretizado. Até porque tem muita denúncia que
pode não ter fundamento. Acho que em algum momento as pessoas vão se
manifestar.
Folha - Sobre a expansão da rede federal anunciada pelo
governo, será possível fazê- la com o atual quadro de professores e
funcionários?
Duarte Filho Acho possível. O ponto que temos levantado pode
ser equacionado, que é a grande defasagem na reposição de quadros das
universidades. O governo temse esforçado, mas estamos longe de recompor. Como
não há cargos criados, o governo tem usado os existentes para suprir a expansão.
Isso comopolítica temporária é compreensível. Porém, não vimos até agora um
projeto de lei criando mais cargos, e isso nospreocupa.
Folha - O sr. sentiu vontade do governoematender ao
pedido?
Duarte Filho
- Sim, inclusive na fala do próprio presidente, que
ressaltou serumanecessidadenão só das universidades como de
todaamáquinaadministrativa.
Folha - Há críticos
da expansão que dizem ser preferível
melhorar a estrutura
atual das universidades a criar instituições e campi. O
sr.
concorda?
Duarte Filho
- São
dois tipos de expansão, não excludentes. A expansão
de
vagas para alunos
nas federais existentes tem custo menor, mas está
focada
nas regiões onde
existem universidades. Já a
expansão
que está sendo feita
com a criação de
novas unidades permite uma democratização do acesso a outras
regiões que hoje não são atendidas.
Folha - Há recursos?
Duarte Filho - O governo temtido preocupaçãoemutilizar
recursos extras. Isso garante que a universidade possa abraçar a expansão. Nossa
preocupação é termos continuidade. Napartede pessoal, nos preocupa a falta de
garantia para o futuro. Se tivermos alternância de governo, nos preocupa uma
nova política que não contempleexpansãopública.
Folha - Por quê?
Duarte Filho - No final do governo Itamar Franco [ 1992-
1994], tivemos um incentivo de crescimentodasuniversidades. Amaioria delas criou
cursos. Na seqüência, com o governo FernandoHenrique Cardoso [ 19952002],
praticamente cortaram a possibilidade de contratação. Foi muito sofrido. Temos
preocupação com esse tipodeatitude.
Folha - O que daria a segurança para o sistema
federal?
Duarte Filho Compromissos colocados por escrito de que vamos
ter contratação para garantir aimplantação dos programas e o custeio incorporado
ao sistema para garantirofuncionamento.
Folha - A expansão democratizará o acesso às universidades
federais?
Duarte Filho - É uma parte. Oferecendo mais vagas públicas
contribuímos para democratizar o acesso, mas há outros elementos. Temos que
interferir mais no sistema de 1º e 2º graus, preparar melhor esses professores,
melhorar a qualidade da educação básica e ter mecanismos mais eficientes de
apoio aos estudantes que entramnasuniversidades.
Folha - Há recursos para os programas de apoio aos
alunos?
Duarte Filho
- Tivemos algo em torno de R$ 5 milhões em 2005. Estamos
tentando ampliar neste ano. Algumas universidades já gastam emmédia 15% de seus
recursos em programas como moradiae alimentação.
Folha - A Andifes é a favor de cota para escola
pública?
Duarte Filho - AAndifes éfavorável a ações afirmativas.
Nossa posição está traduzida no anteprojeto de reforma universitária, com metas
de inclusão, mas respeitando a autonomia da universidade para que ela decida o
mecanismo para promover a inclusão. Somos favoráveis a termos50% de alunos de
escola pública, que etnias estejam representadas, mas a forma como será atingido
cabe a cada universidade.
Folha - O anteprojeto de reforma universitária está na Casa
Civil há seis meses. O processo não está lento?
Duarte Filho - Está lento. O próprio presidente da República
admitiu isso, mas informou que deu
prazo aos vários ministérios envolvidos
até nesta semana.
Ele [Lula] fez uma
analogiacomofutebol, dizendo à ministra da Casa
Civil
[Dilma Rousseff]
que está se passando muito a bola de
um lado para outro
e ninguém chuta
para o gol. Então é
para acabar comessenegócio.
Folha - Da forma
como está o texto da
reforma, é positivo?
Duarte Filho - Tem
um fator importante que valoriza o sistema público, propõe
uma regulamentação do sistema superior como um todo, mas ainda está insuficiente
emrelação ao financiamento das instituições públicas federais e em relação à
autonomia, quando vincula as procuradorias jurídicas das instituições à
Advocacia Geral da União.
Folha - Há especialistas que criticam o fato de dar
autonomia às federais sem exigir contrapartida. O sr. concorda?
Duarte Filho
- As universidades federais têmpapel e desempenho
importantes. A autonomia vai permitir que as instituições possam utilizar seus
recursos humanos e financeiros demaneira mais eficiente para atingir seus
objetivos. Um exemplo que ilustra o significado da falta de autonomia é o
período probatório de umservidor. São três anos. Neste período, a instituição o
avalia com o objetivo de saber se o servidor corresponde ou não às expectativas.
Se não, deveria dispensá-lo e chamar outro. Nós podemos dispensá-lo, mas não
chamar outro [ cabe ao governo federal contratar funcionários e docentes]. Então
é melhor ficar com10% deum servidor ruim do que zero. Sem contar que você
ficarácomelepor 30,35anos.
Folha - A universidade pública, especialmente as federais,
precisa rever seus rumos?
Duarte Filho - Todauniversidade precisa fazer isso o tempo
todo. É papel da própria instituição analisar e refletir sobre sua inserção na
sociedade. Deve fazer isso não só no seu meio, mas tambémcom o exterior. Por
isso o processo de avaliação é importante. Creio que algumas correntes
têmdenegrido a imagem da universidade pública em detrimento de interesses
outros, àsvezes econômicos.
Folha - Pode ser específico...
Duarte Filho -
Tivemos uma campanha sistemática de desvalorização do
sistema público e valorização do privado. Foi aí que ocorreu o “boom” do sistema
particular, contingenciamento de recursos financeiros e humanos do público, sem
querer ver o papel que as universidades públicas desempenham. Elas são
responsáveis pela formação dos melhores profissionais, mais de 90% da pesquisa
desenvolvida e pela quase totalidadedapós-graduação.
Folha - O que o sr. espera da universidade pública no
futuro?
Duarte Filho - Que tenhaumpapel cada vez mais importante e
reconhecimento. Os países que se desenvolveram investiram em educação. E não é
só universidade. Essa falsa contraposição entre investir na universidade ou na
educação básica é coisa plantada. É preciso aplicar [ recursos financeiros]
emtodosos níveis.