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Domingo, 7 maio de 2006   edições anteriores
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Uma onda nacionalista vem varrendo a América Latina. Defesa da soberania? Para Weffort, é mais um olho comprido nas próximas urnas

Mônica Manir

Combustível de conversas graúdas e amiúde, o nacionalismo veio à tona nos últimos dias. Mas não é mais o mesmo de anos atrás. Pelo menos não da época de Vargas, quando se manifestou de forma clássica, talvez a mais clássica de todas na América Latina. Quem compara é o sociólogo Francisco Weffort, crítico aplicadíssimo do nacionalismo e de seu irmão siamês, o populismo - seu livro O Populismo na Política Brasileira, editado em 1978, é outro clássico. Para Weffort, as práticas nacionalistas de hoje, materializadas pela ação da Bolívia nos campos de gás e petróleo, estão batizadas com vários litros de marketing eleitoral. "O nacionalismo deixou de ser verdadeira política de Estado, mesmo porque o Estado não tem recursos para gastar", explica.

Quando sobra um, continua ele, surgem políticas equivocadas de compensação social, como o bolsa-escola, o Bolsa-Família e afins. Embora um dos fundadores do PT, Weffort não poupa o governo e muito menos o partido, do qual se desfiliou em 1994. No ano seguinte, assumiu a pasta do Ministério da Cultura de FHC. Lula, a seu ver, deixou-se cegar por sua retórica demagógica e acabou superado pelos "compañeros" venezuelanos e bolivianos. Para ilustrar a situação, esse professor de História se remete a um provérbio espanhol: "Cría cuervos y ellos te comerán los ojos". Em suas palavras, "os cuervos Chávez e Morales comeram os olhos de Lula". A seguir, riquezas naturais, política externa, xenofobia, greve de fome e outras facetas da questão.

De onde vem essa onda de nacionalismo?

Creio que há um cansaço das políticas de estabilidade, sem crescimento de emprego, que vimos seguindo nos últimos anos no Brasil e em outros países da América Latina. Desse modo, uma volta ao nacionalismo é sempre uma tentação política. Permite jogar nas costas dos outros, ou seja, dos estrangeiros, a responsabilidade pelos problemas que não conseguimos resolver aqui dentro.

Essa onda é diferente das anteriores?

O nacionalismo dos anos 40 e 50 mudou partes da infra-estrutura econômica de países como o Brasil, México, Chile ou mesmo Argentina. Agora, me parece, é mais um assunto de marketing eleitoral do que de verdadeira política de Estado. Getúlio criou a Petrobrás, Lula nem consegue defender direito a própria, como estamos vendo nesse choque com a Bolívia. Chávez, da Venezuela, fala contra os americanos, mas vende 80% do seu petróleo para os Estados Unidos. O que se vê dos atuais governos dito nacionalistas são reuniões e reuniões, com poucas realizações.

Como essa onda se movimenta num mundo globalizado?

A atual onda nacionalista na América Latina é bem menor que a do passado. Chile e México estão fora. Talvez já tenham feito a lição de casa, que lhes permitiu adaptar-se à globalização. O Uruguai, ao que parece, vem preferindo ficar fora dessa onda nacionalista. Os outros países, incluindo o Brasil, ainda pagam o preço pelo atraso na lição, embora estejamos muito à frente da Bolívia, da Venezuela e do Peru.

O nacionalismo na região pode ser observado em diversos países, com protagonistas diferentes. Equador e Bolívia versus Brasil, Chile versus Mercosul, Argentina versus Uruguai. Há algo em comum entre eles?

É óbvio que cada país busca o melhor para si. A idéia de que formem alianças é muito frágil. Veja o caso do Mercosul, que, aliás, nunca esteve tão mal. O Chile toma conta de sua própria vida, fora do Mercosul, e o Uruguai vai pelo mesmo caminho. O fato de a Bolívia se voltar contra o Brasil nesse episódio do petróleo e do gás deve significar, mais adiante, um afastamento entre esses países. A propósito, é importante observar o resultado das eleições no México, no início de julho. Pelas pesquisas, deve vencer o candidato do PAN, o mesmo partido do atual presidente, Fox. O candidato do PRI, antigo partido dominante, está bem atrás nas pesquisas. O candidato do PRD, o atual prefeito da Cidade do México, ainda mais nacionalista que o do PRI, deve ficar em segundo lugar.

Os embates são sempre econômicos. Isso pode acabar em armas?

Não creio que haja qualquer risco disso, pelo menos em relação ao Brasil. As questões que hoje afastam esses países são sempre econômicas e comerciais. É verdade que tivemos, há algum tempo, embates entre o Peru e o Equador, como resultado de conflitos de fronteira. Mas, no geral, os militares só entram nesses assuntos para encenar. Veja, por exemplo, o caso Brasil-Bolívia.

O nacionalismo, de forma genérica, seria uma defesa contra a política neoliberal?

O nacionalismo se propõe contrário ao neoliberalismo, isso está claro. Menos claro é se funciona efetivamente como alternativa. Até onde dá para ver, não tem tido maiores resultados. Há alguns anos, no Peru, Alan García radicalizou uma política nacionalista que quase levou o país à falência. Agora, é candidato de novo. E o seu adversário é um nacionalista ainda mais radical. A questão é saber se são capazes de alguma coisa além de palavras.

Faz sentido atrelar práticas nacionalistas a riquezas naturais? O que, afinal, deveria ser nacionalizado pensando-se na soberania de um país?

O que faz sentido para a soberania de um povo é colocar suas riquezas naturais para produzir melhores condições de vida e desenvolvimento para esse povo. É evidente que não faz sentido entregar, de graça, as riquezas naturais de um país para os estrangeiros. Um país com riquezas naturais pode afirmar sua soberania explorando suas próprias riquezas, se tiver recursos econômicos para tal. Ou pode admitir a entrada de capital externo, assegurando-se vantagens e compensações. Gás e petróleo debaixo da terra não defendem a soberania de ninguém.

O nacionalismo tem algum efeito positivo?

O nacionalismo, entendido em sentido amplo, sempre se justificará como uma atitude geral de defesa da soberania e dos interesses nacionais. Mas o nacionalismo econômico, no sentido em que o praticamos nos anos 40 e 50, passou da época.

O nacionalismo freqüentemente é acompanhado por populismo. Esse populismo é uma reencarnação do antigo? Jorge Castañeda, por exemplo, descreveu Chávez como "um Perón com petróleo".

Talvez Castañeda tenha razão ao associar Chávez a Perón - mais ainda com o petróleo em alta nos mercados internacionais. Ocorre que, como já assinalei, seu maior comprador são os Estados Unidos. Ele se afasta dos EUA na retórica e se aproxima no plano dos interesses comerciais. Entre vendedor e comprador sempre podem ocorrer atritos, mas os interesses de ambas as partes em manter o comércio acabam prevalecendo.

Que tipo de populismo é este protagonizado por Garotinho e sua greve de fome?

Creio que, no Brasil, o populismo deixou de ser uma política de Estado, como foi no passado, para se converter num estilo pessoal de fazer política. Esse caráter aparece de forma extrema na greve de fome do Garotinho, que está colocando sua vida em jogo, pelo menos no plano simbólico, para poder ser candidato à Presidência da República. Getúlio se matou quando sua política de Estado terminou. Garotinho coloca a vida em risco para começar a sua. Mas terá uma política de Estado? Se tiver, será uma política populista? Se for, não será no sentido tradicional do populismo brasileiro. Já não existem condições para isso no Brasil.

Populismo e nacionalismo são endemias políticas da América Latina? Se sim, como escapar dessa armadilha?

Enquanto houver massas de pobres no Brasil e em outros países na América Latina, sempre haverá um estilo populista de fazer política. Isso não significa, no entanto, que se venha a repetir o passado. Somente haveria condições para tal se o Estado tivesse hoje recursos para gastar, como já teve no passado. E, como sabemos, não tem. Só se tem recursos, no máximo, para políticas de "compensações sociais", como a do Bolsa-Família. O Estado não tem capacidade financeira para atuar como Estado interventor ou produtor, como atuou em certa época no Brasil. A Petrobrás, que no passado foi a maior conquista dessa política, transformou-se numa multinacional que vende ações na Bolsa de Nova York. Um empresa, portanto, que tem que dar lucros. Quem pensaria hoje em iniciativas como a de Juscelino que, em quatro anos, construiu Brasília? O Estado não tem nem dinheiro, nem crédito para tanto.

Em que medida são estratégias para esconder as desigualdades sociais?

No passado o populismo certamente "escondeu" as desigualdades, mas também as atenuou, por meio do crescimento do emprego e, eventualmente, como no período JK, por meio do aumento dos salários reais. Isso também ocorreu com Perón no segundo período pós-guerra. Foram políticas de intervenção estatal na economia, de ampliação dos direitos sociais e de redistributivismo social. Nas condições atuais, a ampliação dos direitos virá pela democracia. O redistributivismo, se houver, será resultado do crescimento econômico. Tudo isso supõe políticas de Estado contrárias à tradição populista: mais controle sobre os gastos públicos e mais modernização da economia.

O nacionalismo é realmente eficaz como recurso eleitoreiro?

Até para ser eficaz na economia ele exige ser temperado com um grau suficiente de realismo econômico. Depois de tantas frustrações eleitorais, o povo já tem uma tendência a descrer de milagres e de milagreiros.

Em pleno ano eleitoral, há outra saída para o Brasil que não a via diplomática no conflito Brasil-Bolívia? Ele tem se saído bem ou mal até então?

No caso do conflito Brasil-Bolívia, a saída é diplomática e comercial, sem esquecer os fóruns internacionais. Em minha opinião, Lula administra muito mal esta crise. Está dividido entre o marketing ideológico das reuniões com os "hermanos" Chávez, Morales, etc. e a real defesa dos interesses brasileiros.

Existe uma certa megalomania da diplomacia brasileira que, em vez de ser fértil, cria corvos na América do Sul?

"Cria cuervos y ellos te comerán los ojos." Esse provérbio espanhol se aplica bem à amizade entre Lula e a dupla Chávez-Morales. Veja a que chegou o antiimperialismo desses "hermanos": depois de muita retórica antiamericana, eles se voltam contra o Brasil. Lula se deixou confundir por sua própria retórica demagógica e acabou superado pelos "compañeros" venezuelanos e bolivianos. Os "cuervos" Chávez e Morales comeram os olhos de Lula.

Tribunais internacionais são uma boa saída para resolver a questão? Aliás, a Petrobrás deve recorrer à Justiça internacional, com sede em Nova York, porque provavelmente terá perdas depois desse imbróglio com a Bolívia e deve satisfação a seus acionistas...

A Petrobrás está recorrendo aos tribunais internacionais e tem que fazê-lo. Até pela simples razão de que tem acionistas privados que querem resultados e são contrários a filantropias com dinheiro da empresa em que investem dinheiro. É como se dissessem, "tudo bem, ajudemos a Bolívia, um país pobre, mas não com o meu dinheiro". Essa deverá ser também a atitude dos cidadãos brasileiros que, como contribuintes e consumidores, deverão pagar pelos prejuízos da política da empresa na Bolívia.

Como o Brasil manifesta seu nacionalismo? Com a campanha da auto-suficiência, por exemplo? Vale para levantar a auto-estima do povo?

Sempre vale levantar a auto-estima do povo. Isso tem a ver com um nacionalismo em sentido mais amplo, que melhor seria descrever como patriotismo. Mas não deveria ser usado em campanhas demagógicas. Nunca a auto-estima do povo brasileiro foi tão alta como no período JK e, contudo, ele não fez apenas Brasília. Ele também estava abrindo caminho para investimentos estrangeiros na indústria automobilística.

Os investidores, em geral, olham torto para os nacionalistas. Não seria suicida manter essa postura?

Não olhariam torto se houvesse uma política nacionalista que desse resultados. O problema é que o nacionalismo hoje é tratado por muitos como artigo demagógico para fins eleitorais. Ou como álibi para aumentar os gastos públicos além das receitas. E isso seria uma condição de fracasso de qualquer perspectiva de verdadeiro crescimento econômico.

Ondas de xenofobia nos países de Primeiro Mundo são mais um viés do nacionalismo?

Certamente são, embora de um tipo inteiramente diferente do caso latino-americano. Na França, na Alemanha, na Espanha, Itália e nos EUA, nascem da preocupação com o mercado de trabalho interno. De um lado, precisam do imigrante. De outro, ele significa uma competição com os trabalhadores locais. É um nacionalismo menos ligado ao investimento de capital e mais ao mercado de trabalho e a diferenças culturais, que não raro envolvem tradições racistas. Os europeus sempre controlaram de maneira rígida a imigração de mão-de-obra africana ou mesmo latina. Não acredito que haverá onda maior lá. Nos EUA, caso sejam levados a reconhecer a legalidade dos imigrantes, de certo modo passarão uma mensagem de abertura maior que os europeus.

Existe parentesco entre nacionalismo e fundamentalismo?

Já houve no passado, na Alemanha nazista ou na Itália fascista. Não porém no Brasil ou em qualquer outro país da América Latina. Mesmo na Alemanha e na Itália, era uma contrafação de atitudes religiosas. Um verdadeiro fundamentalismo é um extremismo de base religiosa, exige concepções religiosas profundas, que o nacionalismo latino-americano nunca teve, graças a Deus.

O decreto em que a Bolívia nacionaliza o petróleo, dizem, era esperado pelos bolivianos. Por que se mostrou uma surpresa para o governo brasileiro? O País está entendendo direito o mundo à volta?

Foi uma surpresa para os brasileiros porque o governo Lula, de olho nas próximas eleições, acredita mais no marketing e na publicidade das imagens do que nas ações práticas. Que esperar de um governo que só consegue aprovar o orçamento no Congresso em maio, quando deveria tê-lo feito em fins do ano passado?

   



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