JORNAL DA PARAÍBA, 25 de janeiro de 2006

 

Duda promete revelar esquema de Caixa 2 e assusta PMDB da Paraíba

 

          LUÍS TÔRRES

 

    O PMDB da Paraíba e o PT em Campina Grande vivem momentos de pânico e tensão desde que a CPI dos Correios, que apura corrupção no governo federal, decidiu marcar uma reunião para convocar, mais uma vez, o publicitário Duda Mendonça. Caso seja aprovado o requerimento da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), o publicitário voltará à CPI para explicar outros esquemas de Caixa 2 operados por ele em diversas campanhas – inclusive a do PMDB paraibano, em 1998, e a do PT, em 2000, em Campina Grande.

 

    De acordo com a revista Veja desta semana (edição 1.940 de 25 de janeiro de 2006), “acuado pelas denúncias de recebimento de dinheiro de Caixa 2, contratos fraudulentos, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, o publicitário telefonou para alguns antigos clientes e avisou que, caso seja obrigado a comparecer novamente ao Senado, não poupará ninguém”. Segundo a revista, Duda “ameaça revelar detalhes de como foram pagas as campanhas de governadores, deputados e senadores nas últimas três eleições”.

 

    Não é para menos o terror que se instala entre petistas campinenses e peemedebistas de alto coturno – entre eles a ex-prefeita Cozete Barbosa e o senador José Maranhão. No caso de Cozete, a CPI dos Bingos já recebeu vasto material sobre os pagamentos a Duda Mendonça na Paraíba – material que se encontra também à disposição da senadora Heloísa Helena, à distância de um simples requerimento.

 

    No caso do PMDB, a senadora também poderá ter acesso a dois documentos do maior interesse para a elucidação dos caminhos trilhados pelo publicitário Duda Mendonça na Paraíba, através de uma ação movida pela A2CM Ltda., de propriedade de Mendonça, contra Robinson Khoury Viana da Silva e Otamar Batista Gama. O processo diz respeito à cobrança de uma dívida de prestação de serviços de marketing político em campanha eleitoral para governador e senador em 1998. O valor da conta: R$ 2.072.666.50.

 

    Curioso nisso tudo é que, ao obter uma cópia da ação, a senadora Heloísa Helena deverá solicitar, também, a prestação de contas oficial da campanha do PMDB em 1998, que elegeu José Maranhão para seu segundo mandato como governador e garantiu a reeleição de Ney Suassuna para o Senado Federal. A questão é que, na prestação de contas da campanha, aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral, consta um total de R$ 747.147,77 destinados a propaganda e publicidade (R$ 339.647,77) e produções audiovisuais (R$ 407.500,00): uma diferença de R$ 1.325.518,73 – o suficiente para despertar o interesse da senadora do PSOL e, conseqüentemente, assustar o PMDB paraibano.

 

          Acordo com partido esconde “caixa dois”

 

    O PMDB da Paraíba usou o "caixa dois" na campanha do então candidato a governador em 1998, José Maranhão, de acordo com ação de cobrança movida pela empresa A2CM, que vem sendo investigada por lavagem de dinheiro e remessa ilegal de dólares para bancos estrangeiros. Na ação, a A2CM, do publicitário Duda Mendonça, confessa que recebeu R$ 800 mil antecipadamente. Em nenhum momento da ação advogados do PMDB paraibano contestaram essa informação.

 

    O pagamento foi feito em quatro parcelas de R$ 200 mil e não declarado à Justiça Eleitoral. Duda Mendonça não conseguiu receber as duas últimas promissórias assinadas. O caso foi parar na 19ª Vara dos Feitos Cíveis da Comarca de Salvador (Bahia). O publicitário baiano cobrava uma dívida de R$ 2 milhões 72 mil e 666,50. Erros no preenchimento das duas promissórias livraram o PMDB do pagamento. Na época, para se livrar das penas da lei, Duda preferiu não explicar na Justiça a utilização do "caixa dois". Fez um acordo e recebeu o estipulado no contrato formal, apresentado à Justiça Eleitoral no valor de R$ 400 mil, divididos em quatro parcelas de R$ 100 mil, cobradas através de duplicatas.

 

    As notas promissórias apresentadas pela A2CM, para formação de provas contra o PMDB da Paraíba são de outubro e novembro de 1998, de R$ 838 mil e R$ 500 mil. Elas provam que a A2CM se utilizou do "caixa dois" em campanhas estaduais. Esses valores foram contestados pelos advogados da Coligação Paraíba Unida. Os advogados, em nenhum instante, contestam as assinaturas dos peemedebistas. Apesar de empresários experientes, no processo, os avalistas alegaram ter assinado as notas promissórias em branco para a empresa de Duda Mendonça.

 

    Na nota promissória de outubro aparece a quantia de R$ 888 mil. Leva as assinaturas dos empresários paraibanos Otomar Gama e Robinson Khoury Vianna e de um terceiro peemedebista. No espaço destinado ao valor por extenso, contudo, está grafado "Oitocentos e trinta e oito mil Reais". Esta foi a primeira divergência apontada pelos advogados do PMDB para não reconhecerem a dívida. A proposta de serviços da A2CM apresentada ao PMDB da Paraíba foi dividida em duas partes. Eram R$ 2 milhões para o primeiro turno. Caso o candidato José Maranhão disputasse o segundo turno seria cobrado mais R$ 1 milhão. Maranhão ganhou no primeiro turno, realizado em 3 de outubro de 1998.

 

    Como nas notas promissórias apresentadas por Duda Mendonça constavam datas posteriores à realização do primeiro turno, a tese dos advogados do PMDB da Paraíba foi reforçada. O acordo em juízo, assinado entre os representantes da empresa A2CM Limitada e do Comitê Financeiro do PMDB da Paraíba, em 20 de junho de 2000, pôs fim à pendenga jurídica que se arrastou por um ano. Porém, não apagou os rastros do uso do caixa dois pelo PMDB para pagar os serviços prestados por Duda Mendonça.

 

    Na campanha de 1998 para o governo do Estado, quando cuidou da imagem do candidato à reeleição pelo PMDB, Duda usou notas promissórias que não apareceram na contabilidade oficial do partido, como garantia do seu pagamento. Após a campanha, o PMDB não reconheceu a dívida com o publicitário. Documentos fornecidos pela própria empresa de Duda Mendonça e pelos representantes do PMDB paraibano revelaram os caminhos do "caixa dois" montado pela A2CM para disputa de governador daquele ano na Paraíba. Sem ter como comprovar a legalidade das promissórias, que assegurariam a cobrança pelos serviços prestados no primeiro turno, a empresa do publicitário baiano foi obrigada a aceitar um acordo em juízo, onde nenhuma das partes revelou seu valor. Duda foi obrigado a devolver os originais das notas promissórias e da proposta de contrato, desistir da cobrança de mais de R$ 2 milhões, além de ter de assumir o pagamento dos honorários advocatícios.

 

    Baseados em divergências entre o descrito nas duas notas promissórias e o alegado pela A2CM na ação, além de "indícios de falsificação" de documentos, os advogados do PMDB da Paraíba questionaram a proposta de contrato, assinada em 30 de julho de 1998, com a empresa de Duda Mendonça. Ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), o PMDB apresentou em 1998, oficialmente, na demonstração das origens e aplicações de recursos, despesas que chegaram a R$ 400 mil com propaganda e publicidade e mais R$ 407,5 com produções audiovisuais. No entanto, através da ação de 19ª Vara dos Feitos Cíveis de Salvador, Duda Mendonça cobrou a dívida de pouco mais de R$ 2 milhões só com o seu trabalho.

 

    (Hermes de Luna)

 

          Veja: “Publicitário não vai poupar ninguém”

 

    Segundo a matéria publicada pela revista Veja desta semana, Duda Mendonça chegou a afirmar a um interlocutor que “não trabalhei só para o PT; fiz campanha para todos os partidos. Se sentar na CPI de novo, conto tudo o que sei. Vou explodir todo mundo, não vou poupar ninguém desta vez”.

 

    Mais: o publicitário teria feito chegar a ameaça a pelo menos cinco senadores responsáveis pela investigação.

 

    Veja lembra que, em 20 anos de carreira, o publicitário já fez mais de 60 campanhas para partidos. “É um arquivo vivo que conhece os subterrâneos de muitas campanhas, de muitos partidos, de muitos políticos. Por isso, ele assusta”, assegura a revista.

 

    A empresa A2CM, de Duda Mendonça – que fez negócios aqui na Paraíba, é acusada, ainda, de tentar “antecipar recursos de receita para campanha”.

 

    Segundo Veja, o esquema começou em 1997, no Rio de Janeiro, com o então governador Marcello Alencar, quando as agências que trabalhavam para o Estado teriam sido obrigadas a transferir metade dos valores de suas contas para a A2CM, sem licitação ou concorrência, no valor de R$ 5,1 milhões.

 

    De acordo com Veja, este “é o mesmo valor que o publicitário cobrou de Caixa 2 de outro candidato a governador em 1998, usando a mesma A2CM”.