Jornal do Comércio.

 

ENTREVISTA/ Cláudio Weber Abramo

 

Publicado em 16.04.2005

 

“Os projetos em debate não barram o nepotismo”

 

Crítico dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, afirma que a corrupção no Brasil é uma conseqüência da ineficiência do Estado.

 

JORNAL DO COMMERCIO - O senhor defende a redução dos poderes de nomeações por parte do Legislativo, Judiciário e Executivo. Essa medida seria, na sua opinião, suficiente para acabar com o nepotismo nos Poderes?

CLÁUDIO WEBER ABRAMO – Sim. É evidente que isso não aconteceria da noite para o dia, mas em um espaço curto de tempo essa realidade começaria a mudar. Afinal, com poucos cargos as pessoas teriam que pensar milhões de vezes antes de nomear parentes e aumentar a renda familiar ao invés de contratar gente que faça o trabalho andar.

 

JC - Para a ONG Transparência Brasil, quais as causas da corrupção no País?

ABRAMO - Não é só no Brasil. A corrupção é uma conseqüência da ineficiência do Estado. Ela não é nada mais do que isso. E é por isso que a gente deve trabalhar contra a corrupção combatendo as causas dela, que são justamente as oportunidades para que o agente público exerça seu arbítrio em seu próprio favor ou beneficiando interesses privados.

 

JC - Então, toda a discussão que está acontecendo no Congresso Nacional sobre nepotismo é inócua?

ABRAMO – É. E eu vou dizer a razão. As propostas que estão sendo discutidas não irão acabar com o nepotismo cruzado, que é a modalidade mais comum no Poder Judiciário, por exemplo. Em outras palavras, estão fazendo muito alarde em torno de uma medida que não trará benefícios reais para os cofres públicos do País.

 

JC - Mas a redução drástica de cargos comissionados não atrapalharia as costuras e acomodações políticas que são feitas para dar sustentação aos governos?

ABRAMO - É evidente que sim. Mas não ocorrerão mudanças sem contrariar interesses. Ceder aos interesses é a receita certa para a imobilidade.

 

JC - E de que forma essas mudanças podem começar?

ABRAMO - Acho que o governo federal deveria colocar gente sua trabalhando nisso. O presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) poderia destacar o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, para essa missão. O próprio presidente poderia anunciar prazos para iniciar uma redução gradual na nomeação de cargos do Executivo.